Urca 2009.1 'Hai-Kais'

Hai-kais
Millôr Fernandes, em seu livro 'Hai-kais', se vale da tradicional forma poética oriental para destilar sarcasmo, humor e poesia. É um livro singelo, despretensioso, mas que mostra o poder e a força métrica dos hai-kais. Ao traduzir o estilo para a realidade brasileira, introduz um estilo mais leve, mais humorístico, por vezes, pueril. Ainda assim não perde a essência reflexiva, a qualidade de contemplação do mundo. Millôr, neste livro, brasileiriza ao extremo os hai-kais, dando-lhes nova vida e perspectiva.

Hai Kai I
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
 
Hai Kai II
A palmeira e sua palma
Ondulam o ideal
Da calma.
 
Hai Kai III
O veludo
Tem um perfume
Mudo.
 
Hai Kai IV
Meu dinheiro
Vem todo
Do meu tinteiro
 
Hai Kai V
Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos

Comentário
Em Millôr densidade, secura, economia e comunicabilidade poética brilham diamantes.
 
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granito.

Nesse hai-kai a morte entrelaça ação (eu passeio; verbo) e local (o passeio; substantivo) num único vocábulo.  Semelhantemente à língua chinesa, a palavra perde a classe gramatical normativa para gerar uma gramática própria.  Isso é poesia.  O resto pode ser "sabor da nova geração", nunca poesia.
Considere, ainda, que o granito da laje tumular passa para o da calçada por onde o eu poético passeia. (Belíssimo!) Esse eu vai sendo, pouco a pouco, tomado pela aflição da saudade/lembrança de "tantos amigos". Quais amigos?  Todos.  Os que já se foram e os que caminham no horizonte do possível.  Eis aí o alcance da poesia de Millôr: abraçar o amigo particular, o amigo público, a dor universal dos "tantos amigos" indo ou idos.  Abraçar o sentimento doido de permanecer vivo com "tantos amigos / já granito".
Mas não só de morte vive a poesia de Millôr: política (reforma agrária, isolamento dos justos, inviabilidade da ação dos políticos); religião (anacronismo religioso, moralidade religiosa, vaidade passageira), amor (infidelidade amorosa, encantos da sexualidade feminina); condição humana (incomunicabilidade, solidão, desajuste social, cansaço de viver); poesia (o fazer poético, recriação de Bashô); natureza (aflitiva, lúdica, bela, devastada); mídia (medíocre e mediocrizante) são temas que marcam presença, como sé vê, ora cáustica, ora terna, em seus poemas.
Os Hai-Kais de Millôr são um verdadeiro presente de papai Noel. Certo; um papai Noel saído da canção de Assis Valente, a quem se pede a felicidade, duvidando. Mas de quem se recebe toda a beleza da poesia.  E Millôr dá as mãos a Assis Valente.
Ele gosta de usar o computador para escrever e desenhar. Uma das inteligências mais agudas deste país. Sensível e iluminado.
Arredio a entrevistas, recentemente rompeu o silencio e revelou muito do que pensa ao repórter do suplemento Idéias do JB. Uma visão cética, hilariante, incômoda ? mas sempre real e certeira.
É Millôr Fernandes, mais conhecido como humorista.  Na verdade, um fino pensador brasileiro.  E, agora, poeta. Quer dizer, poeta sempre foi; a reunião dos hai-kais e a publicação em livro é que consolidam um poeta e seu livro de poemas ? até então disperses.
O titulo do livro? Hai-Kais, simplesmente. Seleção dos 93 mais expressivos hai-kais que Millôr compôs nos últimos 30 anos. Um lançamento rigoroso da editora Nórdica para um belíssimo projeto gráfico de Vilmar Rodrigues.
O volume, de 21 x 21 em, capa dura branca, grafada em dourado, ainda conta com uma capa sobressalente amarela, ilustrada por Millôr. As cores, branco e amarelo, ora como moldura, ora como fundo de página, geram um vibrátil diálogo entre as páginas pares e as páginas impares. Aquilo que em outros livros escorrega para saturação, aqui desliza na precisão milimétrica informativa. E tensiona poemas e ilustrações num pique (timing) extraordinariamente arrebatador.
A beleza dos trabalhos de Millôr é valorizada pelo profissionalismo de Vilmar Rodrigues. Quem ganha é o leitor.  Os poemas encontram o meio de expressão adequado.
Eisenstein: "Um livro tem que estar na mão que o segura como se fosse um instrumento bem ajustado". Diante de Hai-Kais não há como não confirmar tais palavras e ainda, lembrar Borges: "Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro”.
Millôr impõe-se (de leve, pela contra mão) um poeta da linha de frente da atual poesia brasileira. Não importa se a intelligentzia nacional rotula humorista de intelectual de segunda classe. Seus hai-kais fazem frente aos belissimos de Olga Savary.  Tiram de letra os de Alice Ruiz e saltam sobre os de Paulo Leminski.  Mas como sempre apareceram na página de humor de revistas e jornais, a critica os deixou na banca dos descartáveis.
Com esta publicação chega a hora de todo leitor tirar os óculos unidirecionais dos “preconceitos” e, oswaldianamente, arriscar o olhar dos olhos livres.
 
Amador Ribeiro Neto,  professor de Teoria da Literatura na UFPB e doutorando em Semiótica na PUC-SP, onde prepara tese sobre poesia e música popular.