Entrevista - Ronaldo Correia de Brito, escritor

Escritor, autor do romance Galileia, ganhador do prêmio São Paulo de Literatura, como o melhor livro do ano

O cearense de Saboeiro, Ronaldo Correia de Brito, 58 anos, é médico por profissão e escritor por vocação. A última obra dele, o romance Galiléia foi considerado um dos melhores lançamentos de 2008 pela crítica literária. O escritor também está sendo lembrado como uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea. Além de escritor e médico, o saboeirense é dramaturgo, encenador e autor das obras teatrais ‘O Baile do Menino Deus’, ‘Bandeira de São João’ e ‘Arlequim’. Atualmente ele assina semanalmente uma coluna na revista ‘Terra Magazine’, no portal Terra. Formado em medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, Ronaldo reside e trabalha no Recife, capital pernambucana, para onde se transferiu em 1969. Sobre sua vida, trajetória como escritor, a profissão de médico, sua cearensidade e sua paixão pela literatura, ele conta em entrevista exclusiva para esta edição do jornal A Praça.

A Praça - O senhor é médico, é cearense, é filho natural de Saboeiro, é escritor e já viajou o mundo ministrando aulas até para americano na Universidade da Califórnia. Estamos diante de um ‘cidadão do mundo’?
Ronaldo - Considero-me um cidadão do mundo, não apenas porque fui escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley. É possível ser um cidadão do mundo sem nunca ter saído de casa.

A Praça - Sua última obra, o romance ‘Galileia’, foi considerada pela crítica um dos três melhores romances brasileiros da safra de 2008. O senhor esperava por isso quando desenvolveu a ideia do livro?
Ronaldo
- Eu desejava escrever um romance diferenciado e trabalhei muito para alcançar isso.

A Praça - Alguns críticos da imprensa chamaram sua obra de ‘cinematográfica’, outros disseram que o livro é ‘econômico’, ‘conciso’, ‘cortante’ e reúne fragmentos da tradição oral reunindo cacos da ruína sertaneja e da tragédia clássica. Afinal, qual o grande enredo do ‘Galileia’?
Ronaldo - É um livro que tenta aproximar a pós-modernidade do arcaico, através de personagens que vivem o conflito da perda de referências culturais e que não encontram um lugar próprio no mundo globalizado.

A Praça - O senhor já escreveu outros livros: ‘As noites e os dias’ (1997), editado pela Bagaço; ‘Faca’ (2003), ‘Livro dos Homens’ (2005), e uma novela infanto-juvenil ‘O Pavão Misterioso’ (2004), publicados pela editora Cosaic Naify. Galileia é sua obra prima? Aquela, que podemos chamar de o sumo de tudo, a mais original, no sentido da idéia do autor?
Ronaldo
- Em Galileia eu aprofundo questões que já estavam abordadas nos meus contos. Só que o romance possibilita um discurso mais longo, ideias mais bem desenvolvidas. Como se trata de um livro sobre questões agudas do Brasil atual, e do homem de todas latitudes, ele tocou as pessoas mais facilmente.

A Praça - O senhor disse á imprensa que “o sertão tanto pode significar um espaço mítico, como um acidente geográfico, pode ser abstrato ou real como o tempo, um espaço de memória confundido com o urbano, o melhor lugar do mundo para acessar a internet, porque o aluguel nas ‘lan houses’ é barato. Galileia trata dessas adversidades, diferenças, contradições?
Ronaldo - Já falei disso um pouco atrás. E tudo o que o que referi sobre o sertão, é o que penso mesmo.

A Praça - O que o senhor quis dizer sobre a afirmação de que a Bíblia é prosa de ficção?
Ronaldo
- Que eu não leio a Bíblia como um livro de religião como o fazem os judeus ortodoxos e os evangélicos. Para mim, a Bíblia é um excelente livro de narrativas, como os clássicos gregos e indianos.

A Praça - Porque o senhor considerou ter concluído o roteiro de um filme quando terminou de escrever Galileia?
Ronaldo - Falei isso meio de brincadeira. É que o romance lembra mesmo o roteiro de um filme, pois é bastante visual.

A Praça - Em algum momento de sua trajetória como escritor, o senhor sentiu que a literatura estava interferindo na carreira do médico Ronaldo? Chegou a pensar em renunciar a medicina para se dedicar somente a arte de escrever, ou isso nunca passou pela sua cabeça?
Ronaldo
- Passou sim e até me levou ao divã do psicanalista. Depois eu compreendi que não seria escritor sem a medicina. E vice-versa.

A Praça - Existe alguma obra sua que o senhor escreveu inspirado em relatos ou acontecimentos de sua rotina como médico?
Ronaldo
- Vários. Minha vida de médico é permanente fonte de inspiração para os meus textos.

A Praça - O senhor considera que Galileia está sendo seu auge na literatura, ou esta obra ainda não o deixou totalmente satisfeito do ponto de vista da expressão de suas idéias?
Ronaldo
- Eu nunca estou satisfeito com nada. Penso sempre que o meu melhor trabalho ainda está para ser feito.

A Praça - O senhor é filho natural de Saboeiro, um dos municípios mais sofridos do Cariri Oeste do Ceará. Qual sua relação com suas origens, família, amigos, sertão. Já pensou em escrever uma obra sobre suas origens, sua cidade, sua gente?
Ronaldo
- Boa parte do que escrevo refere-se a esse mundo sertanejo. É verdade que tudo é memória inventada. Nunca consegui livrar-me dessa paisagem e da memória dos cinco anos em que morei na fazenda Lagedos, no Saboeiro. Galileia é uma epopeia familiar, um romance pontilhado de referências históricas. Eu situo o romance em Arneirós, apenas porque o nome é mais poético, soa melhor. Mas até finalizar o romance nunca havia estado nessa cidade.

A Praça - Por que o escritor Ronaldo Correia de Brito considera que Iguatu é o portal do Inhamuns? Quais suas afeições com essas duas regiões?
Ronaldo - A cidade do Iguatu era a parada obrigatória do trem, para tomar outro transporte para o Saboeiro. Uma noite pernoitei numa pensão da cidade, com muita febre, pensando que ia morrer. Iguatu é mesmo a porta de entrada para o sertão dos Inhamuns.

A Praça - O senhor já atuou como escritor residente e professor visitante da Universidade de Berkley, na Califórnia, nos Estados Unidos. O que significou esta experiência para o cearense, saboeirense, Ronaldo Correia de Brito?
Ronaldo
- Conhecer uma universidade americana dá vontade de que no Brasil alcancemos, algum dia, o mesmo nível de excelência. Foi um período muito bom, que me estimulou bastante a continuar escrevendo.

A Praça - O romance Galileia deu ao senhor, neste ano de 2009, o Prêmio São Paulo de Literatura, como Melhor Livro do Ano. O que isso significa para o escritor Ronaldo Correia de Brito, estreante no formato romance e concorrendo com tantos veteranos?
Ronaldo
- É um estímulo e uma consagração.

Entrevista concedida ao repórter J. Guedes, Jornal A Praça, edição 440, 29 de agosto de 2009