José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e comentarista esportivo da Mais FM 106,1.

O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago
Neste magnífico romance, o heterônimo mais clássico do grande poeta português Fernando Pessoa, o horaciano Ricardo Reis, acha-se novamente em Lisboa, depois de uma temporada no Brasil, onde se auto-exilara. O ano é o de 1936. Médico, educado pelos jesuítas e monarquistas, ele é um sábio capaz de se contentar em assistir ao espetáculo do mundo, como diz numa das epígrafes do livro. Aqui, porém, ele se vê confrontado com os acontecimentos de 1936, em Portugal e fora dele; de um lado, a ditadura fascista de Salazar; de outro, a gestação da Segunda Guerra Mundial, a Frente Popular francesa, a Guerra Civil espanhola, a expansão nazista na Europa. Um confronto, enfim, com um mundo que decerto não era um espetáculo.
Ricardo Reis é uma criação de Fernando Pessoa. Mais propriamente, é um dos seus heterônimos. Talvez deva esclarecer que Fernando Pessoa teve uma obra multifacetada, que intencionalmente dividiu em 4 conjuntos, criando um heterônimo para assumir cada uma das diferentes facetas do seu trabalho. Eu, pessoalmente, prefiro os poemas que assinou com o próprio nome.
José Saramago ousou dar corpo a um desses personagens de ficção. Cria-lhe uma vida e fá-lo interagir com Fernando Pessoa (morto).
Esta ligação dura aproximadamente nove meses. Saramago leva-nos através de uma ideia inovadora. Demoramos nove meses para chegar ao mundo, e demoramos o mesmo tempo a deixá-lo. É um processo de transição, durante o qual o morto vai esquecendo o que foi estar vivo, os caminhos percorridos, os sentimentos vividos. Descobre que nada importa. Nada do que vivemos importa. Chegado ao fim desse tempo, o morto está pronto para partir.
No momento em que Pessoa vai despedir-se de Ricardo Reis, porque chegou a sua hora de deixar definitivamente o mundo, recebe uma resposta inesperada: “Vou consigo”. É um fim brilhante, para a história.
Que bom seria se para cada um de nós, a morte se tornasse efetiva no instante da nossa escolha. Algo como, simplesmente, desligar-se da vida.
O tema morte aparece muitas vezes na obra de Saramago. Recomenda-se a leitura de “As Intermitências da Morte”.
Neste magnífico romance, o heterônimo mais clássico do grande poeta português Fernando Pessoa, o horaciano Ricardo Reis, acha-se novamente em Lisboa, depois de uma temporada no Brasil, onde se auto-exilara. O ano é o de 1936. Médico, educado pelos jesuítas e monarquistas, ele é um sábio capaz de se contentar em assistir ao espetáculo do mundo, como diz numa das epígrafes do livro. Aqui, porém, ele se vê confrontado com os acontecimentos de 1936, em Portugal e fora dele; de um lado, a ditadura fascista de Salazar; de outro, a gestação da Segunda Guerra Mundial, a Frente Popular francesa, a Guerra Civil espanhola, a expansão nazista na Europa. Um confronto, enfim, com um mundo que decerto não era um espetáculo.
Quarta, 24 Junho 2009 13:52

Urca 2009.1 'Hai-Kais'

Hai-kais
Millôr Fernandes, em seu livro 'Hai-kais', se vale da tradicional forma poética oriental para destilar sarcasmo, humor e poesia. É um livro singelo, despretensioso, mas que mostra o poder e a força métrica dos hai-kais. Ao traduzir o estilo para a realidade brasileira, introduz um estilo mais leve, mais humorístico, por vezes, pueril. Ainda assim não perde a essência reflexiva, a qualidade de contemplação do mundo. Millôr, neste livro, brasileiriza ao extremo os hai-kais, dando-lhes nova vida e perspectiva.

Hai Kai I
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
 
Hai Kai II
A palmeira e sua palma
Ondulam o ideal
Da calma.
 
Hai Kai III
O veludo
Tem um perfume
Mudo.
 
Hai Kai IV
Meu dinheiro
Vem todo
Do meu tinteiro
 
Hai Kai V
Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos

Comentário
Em Millôr densidade, secura, economia e comunicabilidade poética brilham diamantes.
 
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granito.

Nesse hai-kai a morte entrelaça ação (eu passeio; verbo) e local (o passeio; substantivo) num único vocábulo.  Semelhantemente à língua chinesa, a palavra perde a classe gramatical normativa para gerar uma gramática própria.  Isso é poesia.  O resto pode ser "sabor da nova geração", nunca poesia.
Considere, ainda, que o granito da laje tumular passa para o da calçada por onde o eu poético passeia. (Belíssimo!) Esse eu vai sendo, pouco a pouco, tomado pela aflição da saudade/lembrança de "tantos amigos". Quais amigos?  Todos.  Os que já se foram e os que caminham no horizonte do possível.  Eis aí o alcance da poesia de Millôr: abraçar o amigo particular, o amigo público, a dor universal dos "tantos amigos" indo ou idos.  Abraçar o sentimento doido de permanecer vivo com "tantos amigos / já granito".
Mas não só de morte vive a poesia de Millôr: política (reforma agrária, isolamento dos justos, inviabilidade da ação dos políticos); religião (anacronismo religioso, moralidade religiosa, vaidade passageira), amor (infidelidade amorosa, encantos da sexualidade feminina); condição humana (incomunicabilidade, solidão, desajuste social, cansaço de viver); poesia (o fazer poético, recriação de Bashô); natureza (aflitiva, lúdica, bela, devastada); mídia (medíocre e mediocrizante) são temas que marcam presença, como sé vê, ora cáustica, ora terna, em seus poemas.
Os Hai-Kais de Millôr são um verdadeiro presente de papai Noel. Certo; um papai Noel saído da canção de Assis Valente, a quem se pede a felicidade, duvidando. Mas de quem se recebe toda a beleza da poesia.  E Millôr dá as mãos a Assis Valente.
Ele gosta de usar o computador para escrever e desenhar. Uma das inteligências mais agudas deste país. Sensível e iluminado.
Arredio a entrevistas, recentemente rompeu o silencio e revelou muito do que pensa ao repórter do suplemento Idéias do JB. Uma visão cética, hilariante, incômoda ? mas sempre real e certeira.
É Millôr Fernandes, mais conhecido como humorista.  Na verdade, um fino pensador brasileiro.  E, agora, poeta. Quer dizer, poeta sempre foi; a reunião dos hai-kais e a publicação em livro é que consolidam um poeta e seu livro de poemas ? até então disperses.
O titulo do livro? Hai-Kais, simplesmente. Seleção dos 93 mais expressivos hai-kais que Millôr compôs nos últimos 30 anos. Um lançamento rigoroso da editora Nórdica para um belíssimo projeto gráfico de Vilmar Rodrigues.
O volume, de 21 x 21 em, capa dura branca, grafada em dourado, ainda conta com uma capa sobressalente amarela, ilustrada por Millôr. As cores, branco e amarelo, ora como moldura, ora como fundo de página, geram um vibrátil diálogo entre as páginas pares e as páginas impares. Aquilo que em outros livros escorrega para saturação, aqui desliza na precisão milimétrica informativa. E tensiona poemas e ilustrações num pique (timing) extraordinariamente arrebatador.
A beleza dos trabalhos de Millôr é valorizada pelo profissionalismo de Vilmar Rodrigues. Quem ganha é o leitor.  Os poemas encontram o meio de expressão adequado.
Eisenstein: "Um livro tem que estar na mão que o segura como se fosse um instrumento bem ajustado". Diante de Hai-Kais não há como não confirmar tais palavras e ainda, lembrar Borges: "Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro”.
Millôr impõe-se (de leve, pela contra mão) um poeta da linha de frente da atual poesia brasileira. Não importa se a intelligentzia nacional rotula humorista de intelectual de segunda classe. Seus hai-kais fazem frente aos belissimos de Olga Savary.  Tiram de letra os de Alice Ruiz e saltam sobre os de Paulo Leminski.  Mas como sempre apareceram na página de humor de revistas e jornais, a critica os deixou na banca dos descartáveis.
Com esta publicação chega a hora de todo leitor tirar os óculos unidirecionais dos “preconceitos” e, oswaldianamente, arriscar o olhar dos olhos livres.
 
Amador Ribeiro Neto,  professor de Teoria da Literatura na UFPB e doutorando em Semiótica na PUC-SP, onde prepara tese sobre poesia e música popular.

Quarta, 24 Junho 2009 13:16

Urca 2009.1 'A Carta'

Pero Vaz de Caminha
O primeiro jornalista e o poeta do descobrimento do Brasil
Todo mundo já ouviu falar de “Pero Vaz de Caminha”, o qual fez e enviou uma carta ao Rei de Portugal e quase sempre se houve dizer: aquele que disse a respeito do Brasil, mas, nas entranhas do assunto quase ninguém comenta a realidade dessa carta maravilhosa, que nos deu a formatação deste imenso Brasil, um presente que Portugal nos deu e quem foi o ilustre cidadão português? O que ele era? E como foi indicado para relatar essa viagem? É o que vamos detalhar.
O principal documento sobre a descoberta do Brasil saiu da pena de Pero Vaz de Caminha, que era amigo do Rei de Portugal D. Manuel I, e por ele indicado para ser o cronista dessa viagem que durou 54 dias, sendo que o mesmo anotou tudo que se passou desde a saída de Lisboa com 13 navios e do porto do Restelo no dia 09 de março de 1500 e a chegada ao Brasil no dia 22 de abril desse mesmo ano.
Na sua crônica de 14 folhas em um papel de “florete”, detalhou essa viagem, muitas vezes com coisas pitorescas, outras com poesias, falando desse local, dessa terra de árvores e florestas, onde os homens andavam nus e ficou provado mais uma vez que o Brasil já era do conhecimento dos Reis de Portugal e vindo a baixo a tese que foi descoberto por acaso, uma vez que já conheciam essas terras desde o ano de 1300, prova disso com o tratado da “Bula Inter-Pares” do Papa e depois o “Tratado das Tordesilhas” e o porquê de enviar 13 navios com quase 5 mil homens, para que? na realidade para tomar posse das terras descobertas por “Sancho Brandão” português, que no ano de 1300 descobriu as terras do Brasil e o Rei de Portugal guardou todos os detalhes na “Torre do Tombo” em Lisboa, com receio de que a “Catalunha Espanha” pudesse saber e vir para o Brasil, uma vez que quem demarcava as terras descobertas era o “Papa” na época a “ONU” mundial e o Papa era Espanhol, e só após a descoberta da América por Colombo, que despertou o temor de Portugal e aí o Papa já era alemão, resolveram dar seqüência à descoberta, criando essa viagem fantástica.
A carta de Pêro Vaz de Caminha seguiu para Portugal no dia 02 de maio de 1500, e ficou escondida na Torre do Tombo por dois séculos e meio, e só foi descoberta em 1773 pelo guarda-mor do arquivo da Torre do Tombo e só foi publicada no ano de 1817. Esse original chegou a vir para o Brasil em meio a documentos da Biblioteca da Academia Real dos Guarda-Marinhas, após anos da família real vir para o Brasil no início do século 19 e retornou a Portugal, estando guardada num cofre da própria Torre do Tombo, como o mais sagrado documento da descoberta do fenomenal Brasil, ou seja, a Certidão de Nascimento do Brasil que prova que a mãe-pátria foi a mãe e o pai do Brasil.
Nenhum país do mundo tem a sua certidão de nascimento feita no seu nascedouro, ele foi o tabelião dessa grandeza toda, uma obra prima de um mestre jornalístico, feita por um cidadão lusitano cheio de uma visão magnética e poética, ele, Caminha foi o maior cronista da história do Brasil e de Portugal.
Para conhecimento das pessoas, vou transcrever um trecho dessa maravilhosa carta, a “Carta de Pero Vaz de Caminha”:
SENHOR, Posto que o capitão-mor dessa vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova de achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora a achou. Não deixarei também de dar minha conta a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que para o em contar e falar, o saiba fazer pior que todos.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afrear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Naturalmente a carta foi escrita ainda na mudança do português arcaico para o português moderno. Depois descreve toda a viagem e no final, diz o seguinte: E dessa maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra eu vi. E, se algum pouco me alonguei, me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo dizer, me fez pôr assim pelo miúdo. Beijo as mãos de Vossa Alteza,
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
 
Pero Vaz de Caminha.
Quarta, 24 Junho 2009 13:12

R$ 5 bilhões

Plano Agrícola para financiar médio produtor
Na safra 2009/2010, o médio produtor brasileiro terá R$ 5 bilhões para financiar a lavoura, 72% a mais do que no ciclo anterior, por meio do Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger Rural). Reformulado para permitir que mais agricultores tenham acesso ao crédito com condições facilitadas, o programa faz parte do Plano Agrícola e Pecuário para a próxima safra anunciado, nesta segunda-feira, em Londrina(PR). O Proger também dobra o limite de renda do produtor que pode ter acesso ao crédito. A partir deste semestre, o agricultor com renda bruta anual de até R$ 500 mil está apto a buscar o financiamento. Já os limites de crédito subiram de R$ 150 mil para R$ 250 mil.
No total, o Plano destina R$ 107,5 bilhões para financiar plantio, colheita, venda e seguro rural na próxima safra, que começa em julho. “O governo entende que a agropecuária é um dos setores que mais contribui para o Brasil sair da crise econômica mundial”, comentou o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes.

Cooperativas
Responsável por quase 40% da produção nacional de grãos, o cooperativismo mereceu destaque no Plano 2009/2010, com R$ 2 bilhões destinados ao Programa de Capitalização das Cooperativas (Procap Agro) – criado para promover a ampliação de capital de giro e a reestruturação da estrutura patrimonial das cooperativas de produção agropecuária, agroindustrial, aquícola e pesqueira. O Procap Agro também permite o aumento do capital de giro associado ou não a um projeto de investimento, além do custeio ou saneamento financeiro. O limite de financiamento é de R$ 25 mil por associado. Já o limite por cooperativa foi estabelecido em R$ 50 milhões. A linha de crédito, com taxas anuais de 6,75%, tem prazo de reembolso de até seis anos.

Sustentabilidade
O pioneiro do Plantio Direto na Palha no Brasil, Herbert Arnold Bartz, foi homenageado com a medalha Apolônio Salles, durante o lançamento do Plano Agrícola. Para deter a a erosão, Bartz, em 1972, buscou conhecimento o plantio direto, desenvolvido nos Estados Unidos. Além de aumentar a produtividade e poupar combustível e fertilizantes, a técnica  aumenta a matéria orgânica.
Nesta próxima safra, os produtores terão R$ 1,5 bilhão para investir na reinserção de áreas no processo produtivo, na correção e conservação do solo bem como na adoção de práticas sustentáveis no campo. São mais R$ 500 milhões em relação ao ciclo 2008/2009. Os recursos também serão aplicados na adoção de sistemas de produção sustentáveis, como o Integração Lavoura-Pecuária-Silvicultura (ILPS) e o Orgânico.
Também para incentivar a produção sustentável, será concedido até 15% mais crédito de custeio para quem tenha reservas legais e áreas de proteção permanentes, ou tenha plano de recuperação das áreas. Há também outros programas de investimento, como a construção e a modernização de equipamentos para tratamento de dejetos e projetos de adequação sanitária e ambiental. Já o Programa de Plantio Comercial e Recuperação de Florestas (Propflora) concede crédito para a manutenção de florestas com fins econômicos e a recomposição de áreas de preservação permanente e de reserva legal.
Os programas de investimento tiveram acréscimo de 37% na safra 2009/2010 e vão contar com R$ 14 bilhões. Os recursos para custeio e comercialização a juros controlados (taxas fixas) subiram 20,2%, alcançando o valor recorde de R$ 54,2 bilhões. O novo Plano abrange também a criação de linhas de financiamento que favorecem o produtor, a ampliação de limites de crédito e a inclusão de modalidades nas linhas de crédito disponíveis.
Os preços mínimos para 33 culturas foram reajustados em até 65%. O aumento dos valores inclui as culturas mais expressivas, como arroz (20%), leite (15%), raiz de mandioca (12%), soja (10%) e milho (6%).
O orçamento para o Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR) em 2009, é de R$ 182 milhões. Para atender à demanda apresentada pelas seguradoras, o governo federal está propondo ao Congresso Nacional a elevação deste valor para R$ 273 milhões. Esses recursos possibilitarão o atendimento a 90 mil produtores e cobertura de 8,1 milhões de hectares, quase o dobro do verificado em 2008.
Quarta, 24 Junho 2009 12:54

Urca 2009.1 'Fogo morto'

Fogo Morto
Publicado em 1943, "Fogo Morto", é uma contundente visão do processo de mudanças sociais e econômicas do Nordeste brasileiro. O título refere-se à transformação do Engenho Santa Fé, localizado na zona da mata da Paraíba, de núcleo de poder econômico a pólo de miséria, com o apagar definitivo de suas fornalhas.
"Fogo morto" é a expressão utilizada no Nordeste para denunciar a inatividade de um engenho. A forma como José Lins conta esse processo ultrapassa a mera classificação geralmente dada ao livro de romance regionalista e o insere na tradição brasileira, que inclui "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo, como narrativa que toma como protagonista não um personagem isolado, mas um local, no caso, o engenho decadente.
Estilo do autor
Marcado por frases curtas, pela espontaneidade e oralidade, próprias do cotidiano, o estilo do autor já se faz presente em "Menino de Engenho", seu primeiro romance, de 1932, que lhe rendeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Esse livro já integra o seu ciclo da cana-de-açúcar, completado ainda por "Doidinho" (1933), "Bangüê" (1934), "O Moleque Ricardo" (1935), "Usina" (1936) e o próprio "Fogo Morto" (1943).
O último romance dessa saga nordestina é dividido em três partes: "Mestre José Amaro", "O Engenho de Seu Lula" e "Capitão Vitorino Carneiro da Cunha". A primeira trata especificamente do seleiro homônimo. Cada vez mais ensimesmado e agressivo, é abandonado pela esposa, vê a filha enlouquecer e perde o emprego com a progressiva crise econômica. Solitário, suicida-se.
Engenho em declínio
A segunda focaliza o próprio Engenho Santa Fé. Inicialmente, há a prosperidade levada adiante pelo fundador, o capitão Tomás Cabral de Melo. Já o seu genro, Luís César de Holanda Chacon, o Seu Lula, mais aristocrático, religioso e extremamente preconceituoso em relação aos negros, conduz o empreendimento ao declínio.
O Capitão Vitorino é o centro das atenções na parte final. Compadre de mestre Amaro e ironizado até a segunda parte do livro, torna-se, no último terço, um Dom Quixote (alusão ao personagem de Miguel de Cervantes) do sertão nordestino, com todo um discurso em prol da justiça e da igualdade social, que desafia o poder dos latifundiários. Sonhava então em atingir o poder político e, mesmo sem possibilidades concretas de tornar esse desejo realidade, imagina-se em postos de comando, escolhendo assessores e recebendo aclamações da população.
Temos assim, a narrativa de três fracassos: o seleiro que dá fim à sua existência isolado, o engenho cujo fogo não é mais aceso e o sonhador que vive mergulhado em suas fantasias de atingir uma posição social que está, na prática, bem distante dele. Essas derrotas são narradas com vigor por um escritor que, como mostrou seu discurso de posse na ABL, nunca se preocupou em agradar ao poder, seja na esfera literária, econômica ou política.

Oscar D'Ambrosio*

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