Resumo das obras da UEPB 2013 Destaque

Escrito por  Segunda, 26 Novembro 2012 12:13

 

A UEPB realiza as provas de seu vestibular 2013 nos dias 02 e 03 de dezembro de 2012. Veja a seguir o resumo e a análise das obras indicadas para a prova de Língua Portuguesa e Literatura: Cartas chilenas (Tomás Antônio Gonzaga); O invasor (Marçal Aquino); O centauro no jardim (Moacyr Scliar); O livro das ignorãças (Manoel de Barros).

 

 

Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga

Cartas Chilenas é um conjunto de poemas, escritos em versos decassílabos e brancos, com uma metrificação parecida com a da epopeia, e circularam anonimamente em Vila Rica, entre 1787 e 1788, seus versos assumem um tom satírico.

É uma obra satírica, constituindo poema truncado e inacabado (13 cartas), na qual um morador de Vila Rica ataca a corrupção do Governador Luís da Cunha Menezes. Aponta as irregularidades de seu governo, configurando o ambiente de Vila Rica ao tempo da preparação política da Inconfidência Mineira. Em julho deste ano de 1878, Cunha Menezes deixaria o governo de Minas, em favor do Visconde de Barbacena.

Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago. Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados, como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a igreja do Pilar. O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.

A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.

Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.

Para Critilo, o arbitrário Governador constituía, de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade.

Entretanto, não se nota nas Cartas nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do governador Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.

Sendo anônimo o poema e tendo permanecido inédito até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria, embora a tradição mais antiga apontasse Gonzaga sem hesitação. Falou-se depois em Cláudio, em Alvarenga Peixoto, em colaboração etc. Estudos empreendidos neste século, culminando pelos de Rodrigues Lapa, vieram dar prati-camente a certeza da atribuição a Gonzaga.

É tida como uma das mais curiosas sátiras de todos os tempos em Literatura Brasileira (junto com Antônio Chimango). Quem assina essas cartas é um certo Critilo, que escreve a um amigo, Doroteu. O contexto também era diverso, já que o clima de opressão e a tensão política deveriam se asilar no apócrifo.

As Cartas têm em Cunha Menezes (no texto, batizado com o singelo nome de Fanfarrão Minésio) o seu protagonista. Além do viés satírico, a obra constitui um interessante quadro dos costumes daquela época e um registro precioso do que era a corrupção no Brasil já desde os tempos da Colônia. Critilo, por sua vez, escreve do Chile.

 

O Invasor, de Marçal Aquino

O invasor teve um processo de criação inusitado: em 1997, quando existia apenas uma parte do texto, o cineasta convenceu o escritor a interromper a novela e transformar a história no roteiro do terceiro longa-metragem da dupla. Somente cinco anos depois Marçal Aquino retomou e finalizou o livro, lançado juntamente com o filme, que colecionou prêmios em festivais e marcou a estreia no cinema do titã Paulo Miklos, além de ter propiciado uma performance inesquecível ao rapper Sabotage (1973-2003), a quem a novela é dedicada.

Ambientado em São Paulo, O invasor narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência.

Quando Ivan e Alaor, sócios de uma empresa de construção civil, decidem dar um jeito em Estevão, seu inocente, porém majoritário sócio, por causa de uma licitação fraudulenta em que Estevão naufraga, eles conhecem Anísio, um homem que “sabe olhar uma pessoa e dizer direitinho quem é ela e o que faz na vida”. Mas é aí que a dupla de personagens acaba encontrando o cara errado para o serviço errado. Isso porque Anísio é mais do que um assassino profissional, ele é o Invasor. Após o triunfo do plano, Ivan, que é o narrador principal, tal qual o ladrão “arrependido” do Evangelho, embarca numa crise de consciência pelo fato de ter aceitado executar seu antigo “amigo”, enquanto Anísio, o personagem-título, busca sua auto ascensão invadindo a vida – literalmente – dos personagens que o rodeia.

Em sua jornada rumo à ruína dos personagens, alternando entre o jogo de intriga, as ameaças, o sexo caudaloso e o assassinato a sangue frio, Marçal Aquino produz com uma voracidade brutal, uma novela instigante, quase policialesca, daquelas que você devora sabendo que a má digestão será quase uma epifania.

Personagens que insinuam suas verdades e mentiras em conjunção, mas nunca suas intrincadas personalidades, desnorteando o leitor em uma trama que lida com suicídio, mentiras, dissimulação, sexo, abandono, morte e solidão – um retrato pungente de todos nós.

SOBRE O AUTOR:

Marçal Aquino (Amparo SP 1958). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Na infância, tem contato com as narrativas orais da zona rural, o que influencia mais tarde a sua obra. Na adolescência, apaixonado pelo cinema, literatura e história em quadrinhos, decide tornar-se escritor. Cursa jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC/Campinas, São Paulo, graduando-se em 1983. No ano seguinte, faz sua estreia literária com a edição independente do livro de poemas A Depilação da Noiva no Dia do Casamento. Muda-se para São Paulo em 1985, e trabalha nos jornais Gazeta Esportiva, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, nas funções de revisor, repórter, redator e subeditor. Posteriormente, prefere ser redator free-lance. Publica seu primeiro livro de ficção, As Fomes de Setembro, em 1991. A partir de 1997, quando é lançado o filme Os Matadores, de Beto Brant (1965), em que é co-roteirista com Fernando Bonassi (1962), dedica-se a roteiros para o cinema. Sua obra mostra uma visão realista do submundo, com abordagem original de temas como sexo, crime, violência e corrupção.

Assista ao filme: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hYw13kBuLYA

 

 

O centauro no jardim, de Moacyr Scliar

O livro aborda uma das maiores imperfeições da sociedade atual: o preconceito. Suas envolventes 233 páginas são divididas em breves capítulos que distinguem nitidamente cada etapa da vida do protagonista, possibilitando, assim, uma mais abrangente interação do leitor com a temporalidade dos fatos. Tem como autor o fascinante Moacyr Scliar, filho de judeus cuja perfeição e irreverência com que conduz as narrativas fizeram-no membro da Academia Brasileira de Letras. Suas belíssimas obras, já publicadas em mais de 20 países, englobam vários gêneros com grande repercussão crítica.

Frequentemente, abordam a imigração judaica e outros temas de igual relevância, como socialismo, medicina (área de sua formação), vida na classe média, etc.

As sutis ilustrações da capa dialogam com o texto, situando o leitor acerca da complexidade dos sentimentos.

Moacyr Scliar adentra o metódico universo judaico a partir do relato dos periclitantes infortúnios de um centauro inserido no mundo real, inseguro e apreensivo a respeito de seu futuro.

Surpreendentemente, Guedali nasce de pais humanos que, aturdidos, buscaram  incessante e frustradamente uma razão para a calamidade. As tradicionais cerimônias judaicas foram realizadas. À medida que crescia brutalmente no cativeiro que se tornara a pequena fazendo de Quatro Irmãos, estabelecia consistentes vínculos afetivos com as irmãs Mina e Débora, tornando-se objeto de inveja de seu mendaz irmão Bernardo. Já na adolescência, aspirava liberdade e mulheres; a sexualidade é delineada com maestria por Scliar. Até que, pesaroso com seus malogros, foge de casa. A princípio, encontra-se num circo, onde se relacione com uma robusta domadora, a qual grita apavorada quando a verdadeira identidade de Guedali lhe é revelada. Seguindo viagem, encontra uma belíssima semelhante: Tita. Amaram-se fervorosamente. Descobriram um médico interesseiro no Marrocos que poderia transformar-lhes em humanos. Financiados por Dona Cotinha, viajam precariamente nos porões de um navio. Já como humanos, instalam-se em São Paulo, onde Guedali, com toda inteligência adquirida em anos e anos de leitura, abriu um rentável negócio. Apresenta Tita para a família, casam-se e têm filhos gêmeos. Paulatinamente, formaram um agradável círculo de amizades.

Via-se perturbado: não sabia definir-se entre humano e centauro; as coisas com Tita haviam esfriado. A vida tornara-se melancólica, mas instigante. Certo dia, voltando de uma fracassado reunião, flagra Tita em pleno deleito de adultério: estava abraçada com um centauro, o qual é morto depois de fugir exasperado quando os amigos entraram. Tira desespera-se. Guedali abandona, inconsequente, família e amigos.

Voltaria a ser centauro

De volta ao Marrocos, instala-se na clínica do médico, que lhe apresenta algo extraordinário: uma esfinge. Timoratamente, aproxima-se dela. Amam-se todas as noites. Esporadicamente, Lolah tinha ataques de fúria. Na cabeça do pobre homem, um turbilhão de pensamentos adversos: desistira da operação, mas era tarde demais.

A sala de cirurgia foi invadida por Lolah, que destruiu o cavalo do transplante, estava apaixonada. Morto, ele retorna à fazenda onde vivia na infância. Como que milagrosamente, reencontra Tita e fazem as pazes, nutrindo profundo amor e desejo um pelo outro.

O afortunado desfecho propõe ao leitor um período de intensa reflexão sobre a genialidade do texto, minuciosamente desenvolvido com um possível intuito de desabafo. A renomada obra é fomentada em crítica ao preconceito em geral, no caso de Moacyr, pode ser atribuído ao judaísmo, e ao capitalismo selvagem, bem retratado na figura do médico marroquino. Riquíssima, é inundada de preciosas informações da cultura judaica, contribuindo notavelmente, para a ampliação do conhecimento de mundo.

A hipnotizante mistura entre real e fantástico implica consideravelmente no desenvolvimento da capacidade lógica de análise textual. Trabalhando com críticas consistentes, contribui para a formação de opiniões. O público-alvo é selecionado. Contudo, seria interessante a leitura de jovens entre 14 e 18 anos cujo conhecimento e maturidade já suportam uma leitura da magnitude do vocabulário e assuntos explorados na obra.

 

 

O livro das ignorãças, de Manoel de Barros

O Livro das Ignorãças, de Manoel de Barros, publicado em 1994, remete à realidade desconhecida, a um desconhecimento prévio dos conceitos, significados, sentidos. Um livro que guarda a origem das coisas. Desconhecer para conhecer, poderia se dizer, é o tema , portanto, da poética de seu autor, Manoel de Barros.

A obra é dividida em três partes:

1. "Uma Didática da Invenção"

Nessa parte da obra, surgem várias questões evidenciando a preocupação de Manoel de Barros quanto as ideias específicas de poesia. Assim, já no primeiro poema do livro, temos a ideia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer a língua, tirando-a dos lugares comuns em que se encontra. Nessa primeira parte há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e alcançar uma língua adâmica, original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à "coisidade" da coisa, em seu âmago de coisa mesmo.

No primeiro poema do livro, temos a ideia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer a língua, tirando-a dos lugares comuns em que se encontra:

Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.

Invertendo completamente a lógica tradicional, esse verso vê o aprendizado das coisas não no ato de aprender, mas no ato de desaprender. Atente-se para o termo "princípios", que aponta para a questão da origem de que se falou antes. Desaprender, segundo o poeta, permite-nos alcançar os princípios, as origens, o momento anterior às palavras, em que só existem as coisas. Essa mesma ideia parece reger O livro das ignorãças, já que ela é recorrente em vários poemas e também na obra inteira do poeta. No poema de número XVI, há um verso que diz dessa ideia de que só as frases opacas e obscuras, que fogem da linguagem comum, é que interessam, pois são iluminadas:

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

Esse trabalho para "desacostumar as palavras", como diz o próprio poeta, dando-lhe significações novas, inusitadas, antes não concebidas, atravessa todo o livro, resultando em versos que, muitas vezes, nos causam espanto, tal a desconstrução da linguagem, tal o "desacostumamento" da língua que eles acabam por fazer. Já que "desacostumar as palavras" é o trabalho da poesia, e do poeta, Manoel de Barros não hesita em agir assim a todo instante, transformando a sua poesia num jogo de sensações, numa inversão das características dos objetos e num lugar de imagens inesperadas. São vários os exemplos dessas inversões e desse jogo com imagens e sensações:

Como pegar na voz de um peixe (I)

E um sapo engole as auroras. (IV)

Eu escuto a cor dos passarinhos. (VII)

Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (IX)

Não tem altura o silêncio das pedras. (X)

Poderíamos continuar enumerando ad infinitum exemplos como esse, já que eles elucidam muito da estética de Manoel de Barros. Esses versos alcançam exatamente a sua proposta de poesia, desvestindo as palavras de seus sentidos corriqueiros, de seus significados gastos.

Não é à toa a referência, em vários momentos, à linguagem das crianças, já que elas ainda não aprenderam a totalidade da língua. Lembremos o que diz o poeta em entrevista já citada: "atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos".

A criança, por não Ter ainda tanto contato com a língua, não perdeu a capacidade de brincar com as palavras, o que as torna poetas sem que elas saibam. Se a poesia é enlouquecer as palavras, fazendo-as delirar, as crianças fazem poesia ao falar, como mostra o poema de número VII:

 

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a

criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona

para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

 

Mudar a função das palavras está dentro do conceito de poesia desse poeta, pois é assim que elas podem delirar, enlouquecer, tirar a língua da lógica. A figura da criança surge novamente em outros poemas, sempre ligada a essa ideia de ilogismo que a poesia deve buscar. Mais do que o ilogismo, os versos abaixo trazem a questão de coisas que sequer têm nome, sendo estas as preferidas pelas crianças:

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (VI)

Ora, como pronunciar nomes que nem existem? É justamente aí, como já viu anteriormente, que reside a poesia de Barros, já que ele busca exatamente aquilo que ainda não recebeu nomes, que ainda não foi aprisionado por definições, por conceitos. Daí sua ideia de chegar às coisas, sem intermédio da língua, tentando tocar na coisa mesma, em sua origem, sem palavras se interpondo entre o poeta e a matéria de sua poesia. Muitas vezes, Manoel fala mesmo de ser as coisas, que ultrapassa o simples tocar as coisas, ou, ultrapassando mais ainda, o falar das coisas. O poema de número IX trata desse ser a coisa:

 

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de

um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,

no mês de agosto.

Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em

nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato

sair na voz.

 

Esse poema é quase um ensinamento de como se tornar uma coisa, nesse caso uma árvore. O processo de ser uma árvore só se completa quando os galhos nascem do próprio corpo, saindo da voz. Isso não é apenas falar da coisa ou tocar a coisa, mas tornar-se a coisa, ser a coisa em seu estado mesmo.

Na obra também há a proposta de, além de tornar-se coisa, "desacostumar as coisas", assim como se deve "desacostumar as palavras". Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de livrar as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de "desinventar objetos" (poema II):

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

Dar ao pente funções de não pentear. Até que

ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.

 

Percebe-se que essa necessidade de desacostumar as coisas caminha junto com a de desacostumar as palavras. O último verso, que fala das palavras, vem logo depois dos versos que tratam das coisas, sendo que todos dizem sobre o mesmo ponto: desinventar coisas e palavras, tornado-os novos, sem sentido pronto, sem definição. Não definir é deixar soltar as palavras e as coisas, é deixá-las simplesmente ser, sem que haja nomes para aprisioná-las num mundo de conceitos, que se tornam cada vez mais gastos e pobres.

Essa ideia da não definição é muito bem trabalhada no belo poema de número XIX, em que pensa no empobrecimento de uma bela imagem originado por uma definição utilizada para conceituá-la.

 

O rio que fazia uma volta atrás de nossa cara era a

imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta que o

rio faz por trás de sua casa se ???chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que

fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

 

A substituição de uma bela imagem criada a partir de um rio foi completamente empobrecida por uma definição geográfica. A poesia da imagem foi rompida pela precisão e redução de um conceito, que nada diz sobre a coisa em si. Assim, percebe-se que a poesia nada tem a ver com definições, levando ser vista com olhos menos pragmáticos, menos reduzidos pela prática e pela precisão a que o mundo nos obriga. É o que mostra a poema de número XIII:

 

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul –

Que nem uma criança que você olha de ave.

 

É justamente o olhar de pessoas razoáveis – entenda-se, por pessoas razoáveis, pessoas comuns – que acabam com a poesia das coisas. O olhar comum sobre as coisas não consegue ver nelas qualquer poesia, acabando por enxergar apenas definições e palavras com seus sentidos convencionais, pobres.

Assim, na primeira parte de O livro das ignorãças, há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e alcançar uma língua adâmica, original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à "coisidade" da coisa, ao é da coisa, em seu âmago de coisa mesmo.

 

2. "Os Deslimites da Palavra"

Aqui o poeta inventa uma lenda e escreve a partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em 1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o poeta encontra esse caderno e tenta "desarrumar as frases", de modo que elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia, pois, como diz o poeta, "nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa", provocou "uma ruptura com a normalidade", ou seja, escreveu fora da língua comum, fazendo poesia.

Essa segunda parte, "Os deslimites da palavra", não foge a esse projeto de linguagem. Aqui o poeta inventa uma lenda e escreve a partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em 1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o poeta encontra esse caderno e tenta "desarrumar as frases", de modo que elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia, pois, como diz o poeta, "nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa", provocou "uma ruptura com a normalidade", ou seja, escreveu fora da língua comum, fazendo poesia.

O resultado do encontro entre as frases do canoeiro, que escreveu fora da normalidade, com o poeta, que também só escreve fora do comum, é uma desarrumação completa dos padrões, um "desacostumamento" radical. Como diz o poema 2.1, primeiro do segundo dia de enchente:

 

Não oblitero moscas com palavras.

Uma espécie de canto me ocasiona.

Respeito as oralidades.

Eu escrevo o rumar das palavras.

Não sou sandeu de gramáticas.

 

Novamente, o que se tem é a questão da supremacia da coisa sobre a palavra: "Não oblitero moscas com palavras." Usar palavras para falar das moscas é uma rasura das moscas, um apagamento, já que se deve chegar à mosca mesmo, e não somente falar dela.

A referência às "oralidades" também é uma fuga à normalidade da língua, já que a fala, a língua oral, apresenta uma série de desvios em relação à linguagem padrão, daí o poeta/canoeiro dizer que não é tolo (sandeu) de ficar seguindo gramáticas, de respeitar a língua imposta por elas. Por isso, o que ele escreve não são as palavras, mas o seu rumor: apenas o som, não o sentido. Escrever apenas o rumor das palavras, sem dar-lhes significado, as aproxima de coisas, de objetos que podem ser quase tocados.

O próprio nome dessa parte do livro já aponta para essas idéias, pois o poeta escreve além dos limites da palavra, ele atinge seus delimites, ele toca o que está fora da linguagem, o que se situa além das fronteiras que a língua nos impõe. Não se deixar submeter pelos limites da língua é o que faz o poeta/canoeiro ao longo de toda essa parte. Um passeio pelos poemas nos mostra isso de forma evidente:

 

Ontem choveu no futuro. (1.1)

Estas águas não têm lado de lá. (1.1)

Os nomes já vêm com unha? (1.2)

A chuva atravessou um pato pelo meio (1.6)

A chuva deformou a cor das horas. (1.6)

Um besouro se agita no sangue do poente. (2.4)

O acaso me ampliou para formiga. (2.7)

Uma sabiá me aleluia. (3.6)

 

O efeito de versos como esses é um grande estranhamento, pois eles fazem a língua delirar em todos os sentidos. A sintaxe delira, os termos mudam de categorias, substantivos ganham qualidades inusitadas, gerando um sentido completamente novo, totalmente "desacostumado".

A questão da origem, de que já se falou anteriormente, surge de maneira marcante.

A enchente que leva o canoeiro a navegar três dias seguinte remete evidentemente ao dilúvio bíblico, texto que trata das origens, por excelência. As imagens de origem são semeadas ao longo dessa segunda parte, sendo as principais o ovo, a água (elemento sempre ligado à origem), o limo (espécie de lama, de lodo, ambiente úmido que sempre remete a uma origem), assim como bichos que lembram as coisas do chão, que se ligam diretamente a um universo mais primitivo, mais telúrico, muitas vezes aquático – lagarto, formiga, coruja, peixe, besouro, vaga-lume, osga (espécie de réptil), aranha, rã, cágado.

Todos esses bichos são diretamente ligados a um mesmo universo mais remoto, às vezes "sujo", viscoso, ou, no mínimo, obscuro, das trevas, silencioso.

Essa ideia do "sujo" também surge mais explicitamente, não só na Segunda como também na primeira parte do livro, já que os ambientes úmidos, primitivos, pantanosos têm uma aparência (e só aparência) de imundície, sendo lugares orgânicos por excelência.

 

3. "Mundo Pequeno".

Nesta terceira parte, "Mundo pequeno", o autor traz as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe com a gramática da língua, conforme já vimos em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos.

Traz também as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe com a gramática da língua, conforme já vimos em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos:

 

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

 

Coisa, rã e árvore, que, gramaticalmente, são substantivos, tornam-se verbos, mostrando um desrespeito do poeta pelas regras gramaticais. O verso final aponta para essa inversão de categorias, representada pela figura do velho que, com sua flauta, inverte os ocasos, assim como o poeta inverte a língua.

A busca pela coisa é, mais uma vez, objeto de poesia, propositalmente no poema que encerra o livro (XIV), antes do "Auto-retrato falado": "Todas as minhas palavras já estavam consagradas de pedras". Esse verso parece apontar para um fim de trajeto, em que as palavras foram sendo desvestidas de seus significados até chegarem ao estado de coisa, de pedra.

Os versos seguintes a esse elucidam ainda mais essa ideia:

Não era mais a denúncia das palavras que me

importava mas a parte selvagem delas, os seus

refolhos, as suas entraduras.

Foi então que comecei a lecionar andorinhas.

 

A busca do poeta é pela "parte selvagem" das palavras, pelas suas reentrâncias, o que a aproxima de uma árvore, de uma pedra, de um bicho. No fim, não se lecionam palavras, mas andorinhas, ou seja, ao invés de o poeta mostrar as coisas através de palavras, ele as mostra através delas mesmas, alcançando, como já se disse, a "coisidade" da coisa, a coisa em si mesma.

Essas idéias se repetem, mais uma vez, com a imagem da árvore, tão presente na poesia de Barros, fazendo com que as pessoas se transfigurem em árvores: "Bernardo é quase árvore." (XII), "Estou atravessando um período de árvore." (XIII), ou o já citado "Ele me árvore." (I).

A recusa a definições ressurge, como no poema III, em que se fala de um vaqueiro, de um "peão de campo:"

 

Gostava de desnomear:

Para de falar barranco dizia: lugar onde avestruz esbarra.

Rede era vasilha de dormir.

Traços de letras que um dia encontrou nas pedras de

uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.

Penso que fosse um escorço de poeta.

 

O peão do poema faz poesia sem que saiba. A sua recusa em definir, em conceituar, ou, mais do que recusa, a sua ignorância dos conceitos, faz dele um poeta, no sentido que Manoel de Barros dá à poesia. Ao contrário do homem que chamou de "enseada" a imagem do rio que passa por detrás da casa, o peão não conceitua, ele cria imagens a partir das próprias coisas, não a partir de conceitos, criando, assim, belas imagens poéticas.

Em O livro das Ignorãças, também há a proposta de, além de tornar-se coisa, "desacostumar as coisas", assim como se deve "desacostumar as palavras". Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de livrar as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de "desinventar objetos.

Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo.

Assim, esse é o percurso da poesia de Manoel de Barros: da palavra à coisa, do ser à natureza, do agora ao original, dá página à pedra. O peão do poema pode ser visto como um duplo do poeta, como uma extensão sua, já que é dessa maneira que o poeta tenta fazer poesia: partindo das coisas, dos bichos, das pedras, de um universo primeiro, situado nas origens: Assim é que o poeta pode "voar fora da casa", pode alcançar os deslimites da palavra, o além da linguagem, o cerne das coisas – sua matéria é, enfim, o que escapa à expressão por meio de palavras.

 

Poema escolhido

Mundo Pequeno

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas

maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas

com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os

besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.


II

Conheço de palma os dementes de rio.

Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama

e de Rogaciano.

Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar

no horizonte.

Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas

de Corumbá. Me disse que as coisas que não existem são mais

bonitas.


IV

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,

Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos

de um mar extinto. Caminha sobre as conchas

dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma

voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não

tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",

ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares

conversamentos de gaivotas. E passam navios

caranguejeiros por ele, carregados de lodo.

Sombra-Boa tem hora que entra em pura

decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam

cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em

Pássaro.

Me disse em Língua-pássaro: "Anhumas premunem

mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".

Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:

"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas

por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a

garças. Nascera engrandecido de nadezas.


VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas

leituras não era a beleza das frases, mas a doença

delas.

Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,

esse gosto esquisito.

Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.

- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,

o Padre me disse.

Ele fez um limpamento em meus receios.

O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,

pode muito que você carregue para o resto da vida

um certo gosto por nadas...

E se riu.

Você não é de bugre? - ele continuou.

Que sim, eu respondi.

Veja que bugre só pega por desvios, não anda em

estradas -

Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas

e os ariticuns maduros.

Há que apenas saber errar bem o seu idioma.

Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de

gramática.


VII

Toda vez que encontro uma parede

ela me entrega às suas lesmas.

Não sei se isso é uma repetição de mim ou das

lesmas.

Não sei se isso é uma repetição das paredes ou

de mim.

Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?

Parece que lesma só é uma divulgação de mim.

Penso que dentro de minha casca

não tem um bicho:

Tem um silêncio feroz.

Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

 

Ler 4073 vezes Última modificação em Sexta, 16 Agosto 2013 22:02
José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e apresentador dos programas Mais Gospel e Mais Debates, aos sábados, na rádio Mais FM 106,1.

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