Enem 2017: veja como evitar oito erros comuns na Redação  Destaque

Escrito por  Sábado, 21 Outubro 2017 01:07

Obter uma boa nota na prova escrita do exame depende de leitura, treino e coerência  

Dos 6 milhões de participantes da última edição do Enem, apenas 77 escreveram redações nota mil. Enquanto isso, mais de 291 mil textos receberam nota zero ou foram anulados. Entre um extremo e outro, muita gente perdeu pontos por bobagens que poderiam ter sido evitadas com um pouco mais de atenção. — Se o candidato não tem o hábito da leitura e o gosto pela escrita, dificilmente vai tirar uma nota mil. Mas pode escrever um texto honesto e garantir um bom escore — garante Luísa Canella, professora de Redação do Unificado. Encarregada de corrigir os textos de alunos do Unificado e do Unificado Med, Luísa está acostumada a todo tipo de deslize — do uso forçoso de termos rebuscados e de clichês a repetições excessivas de termos, falta de conexão entre as ideias e erros gramaticais bobos. 

Um equívoco recorrente, segundo a professora, é tentar impressionar ou enrolar a banca entregando redações baseadas em modelos ou usando palavras sofisticadas. Dificilmente funciona — o mais frequente é que resultem em textos pouco coesos e na perda de pontos preciosos.

Argumentar e propor intervenção - A premissa básica da redação do Enem é que os candidatos escrevam um texto dissertativo-argumentativo. Instituição responsável pelo exame, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) estabelece cinco competências (veja ao fim da reportagem) segundo as quais se avalia a capacidade dos participantes de articular ideias de diversos campos do conhecimento em um texto que traga não apenas argumentos, mas uma proposta de intervenção que contribua para mitigar o problema apresentado. 

 

É claro que a língua portuguesa vem em primeiro lugar: o domínio da escrita formal é fundamental para não se perder pontos. Mas há mais coisas entre o zero e o mil do que contam as gramáticas. Com a ajuda de Luísa Canella, listamos oito erros frequentes, extraídos de redações corrigidas pela professora. Evite-os!

Os erros mais frequentes

Erros gramaticais - O candidato estava desatento ou faltou às aulas mais elementares sobre o uso da vírgula. Deslizes ortográficos como "encima" e "acensão" também ocorrem. Para tirar nota máxima no primeiro critério, o candidato pode cometer até dois deslizes gramaticais. Erros de pontuação, crase e concordância são frequentes. O uso incorreto dos conectivos também tira pontos – mas evitá-los não é uma opção.

— Daí vem a importância do aluno leitor. Textos sem erros, mas que não têm conectivo algum, também são penalizados — ressalta Luísa.

Forçar a barra no vocabulário - Ao mesmo tempo que resvalam nos coloquialismos, muitos candidatos apelam para termos rebuscados na esperança de causar boa impressão à banca. 

— Corrijo textos com expressões como "destarte" e "hodiernamente". Na mesma redação, a pessoa às vezes escreve expressões coloquiais como "perder o foco". Fica uma linguagem incoerente — aponta Luísa.

Clichês e coloquialismo - Cuidado com a linguagem coloquial – uma das "marcas da oralidade" que tiram pontos nos critérios de correção do Inep. O texto é formal, não pode conter gírias, impropérios. 

— Não é um texto em que se deva escrever "a gente precisa pensar". Não, "precisamos pensar", "o cidadão precisa pensar". O "a gente" é popular demais — exemplifica Luísa.

Fuga do tema - A principal causa de anulação eliminou 46 mil participantes em 2016. Às vezes, o candidato viaja na maionese: diante da proposta de um texto sobre aids, escreve sobre a dengue. Em outras, o desvio é mais sutil. Em 2016, o tema foi a intolerância religiosa. Houve redações nota zero em que o candidato abordou a intolerância sem tratar do viés religioso. Por isso, é fundamental ler atentamente o enunciado e elaborar um projeto anterior à escrita, em que sejam definidos os argumentos e o caminho pelo qual se chegará a uma proposta de intervenção clara e coerente.

Citações gratuitas ou fora de contexto - Citações e referências mostram que o candidato tem repertório de informações e as relaciona ao problema apresentado – ou ao menos deveria. Há textos repletos de referências a personalidades tão diversas quanto o sociólogo Émile Durkheim, o escritor Dante Alighieri e o filósofo Friedrich Nietzsche. Mas as ideias não se conectam, nem umas às outras, nem à proposta da Redação. 

— Não adianta citar autores sem nunca tê-los lido — pondera Luísa. — Recomendo aos alunos que citem filmes, seriados, algo atual, que eles consigam contextualizar. 

Intervenção sem explicação - — Dizer que o esporte deve ser incentivado é o óbvio. O Enem quer o detalhamento, o como, o porquê dessa proposta. Deve ser uma proposta clara, detalhada e possível. Não adianta falar que vai distribuir tênis esportivos para todo mundo — brinca Luísa.

Ideias soltas, parágrafos desconexos - Há textos em que um parágrafo termina e o seguinte inicia como se fosse outra redação. Falta a chamada "frase de transição". 

— Os assuntos devem ser relacionados, é fundamental para a coesão do texto. Às vezes, há uma série de citações sem que se estabeleça um nexo entre elas. Por que, afinal, ele foi até a Grécia? — questiona Luísa, sobre o exemplo reproduzido acima.

Repetir, repetir, repetir... e repetir - Há termos que é inevitável repetir: em um texto sobre a condição feminina, por exemplo, é aceitável que se repita a palavra "mulher".  

— Mas há textos em que a palavra-chave não aparece, ou começam a inventar sinônimos esdrúxulos. Ao mesmo tempo, repetem-se palavras secundárias, a palavra "pois" repetida três vezes em um mesmo parágrafo. A banca espera que o candidato tenha vocabulário — diz a professora.

Novo cronograma tem ônus e bônus 

A partir de 2017, as provas de Redação e Linguagens serão aplicadas junto à de Ciências Humanas. Os participantes terão 5 horas e 30 minutos para escrever o texto e ainda responder às 90 questões objetivas, em geral com bastante demanda interpretativa. Para Luísa Canella, a mudança traz vantagens, mas também pode ser desgastante.

— Tem um lado bom: o fato de que a prova de Ciências Humanas pode despertar lembranças e ideias para o texto. Mas, nos simulados que temos feito, os alunos têm ficado muito cansados com a quantidade de texto. Pode ser que a prova de Linguagens venha um pouco menos extensa para compensar — pondera.

Diante da incerteza, a recomendação é de que os candidatos iniciem a prova lendo atentamente o enunciado da Redação e, a partir dele, esbocem um projeto de texto, com os argumentos e a proposta de intervenção. Daí, partam para a leitura e a resolução das questões objetivas, de onde pode surgir, inclusive, alguma ideia que enriqueça o texto.

As 5 competências

O Inep estabelece cinco critérios segundo os quais a banca avalia os candidatos na Redação.

1) Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

2) Compreender a proposta de Redação e aplicar conceitos das áreas do conhecimento dentro dos limites do texto dissertativo-argumentativo.

3) Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

4) Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

5) Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

 

Por FERNANDO CORRÊA

 

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao-e-emprego/vestibular/noticia/2017/10/enem-2017-veja-como-evitar-oito-erros-comuns-na-redacao-cj8xf01x003iu01qnu3762k5n.html

 

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José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e apresentador dos programas Mais Gospel e Mais Debates, aos sábados, na rádio Mais FM 106,1.

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