Terça, 23 Junho 2009 18:48

Resumo Urca 2009.1 Destaque

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Terra Sonâmbula

Mia Couto é um inventor de palavras e um explorador de sonhos. Começo assim, directo, porque há que dizer o que tem de ser dito. O autor moçambicano é um dos mais lidos em Portugal mas apenas me chegou agora aos olhos, através do romance de 1992 Terra Sonâmbula. Futuros encontros aguardam-se, agora falemos deste livro.

Quem diz um livro diz dois, Terra Sonâmbula são duas histórias praticamente distintas contadas ao mesmo tempo. Num primeiro plano temos o menino Muidinga que não tem memória da sua infância, não sabe quem são os seus pais ou a sua família, e é tratado por Tuahir desde que se lembra, um velho que decidiu tomar o jovem debaixo da sua asa. Ao abandonarem um campo de refugiados, encontram num machibombo incendiado o seu novo poiso. Lá encontram também os cadernos de Kindzu que o menino lê todas as noites e onde o leitor vê o segundo plano da narração. A história de Kindzu é bem mais intrigante, jovem decide abandonar a sua terra para se tornar um Naparama, um guerreiro da paz, e acaba por se ver a buscar uma criança de uma mãe renegada, Farida. São histórias de busca, Tuahir só quer encontrar a paz, Muidinga quer encontrar o seu passado, Kindzu quer encontrar Gaspar, o filho de Farida. Tudo o que conseguem é encontrarem-se uns aos outros.

A leitura começa por se apresentar como difícil para um leitor novo no mundo de Mia Couto mas, simultaneamente, atraente. Como disse, é um inventor de palavras, palavras cativantes e sonoras que envolvem o leitor como num sonho, o que, aliás, se conjuga perfeitamente com a história. Isto para além de todos os regionalismos próprios do país africano. Ao nível linguístico, é um rebuçado. A espantosa qualidade de criação de palavras morfologicamente correctas é extasiante - se lhe imitasse o estilo, diria que Mia Couto faz brincacriação com as palavras - mas também extenuante. Para mim, pelo menos. A repetição constante de gerúndios inexistentes na língua portuguesa acaba por ter o efeito adverso ao pretendido, retira-lhes o significado. Ler Terra Sonâmbula pode ser uma experiência muito cansativa porque nos força, várias vezes por página, a reproduzir o processo que ocorreu na mente do autor para a criação de determinado vocábulo - o que não é necessariamente uma coisa má, antes pelo contrário, a literatura não é entretenimento, é literatura.

Falemos agora da narrativa. O conceito da história dentro da história, diga-se em verdade, não é novo mas não é isso que lhe retira mérito. No entanto, fica a sensação que Mia Couto não se propôs a escrever uma história dentro de outra, antes uma história ao lado de outra, a narrativa de Kindzu toma um papel muito maior que a saga de Tuahir e Muidinga. Foi, sem dúvida, aquilo que me pareceu menos conseguido. Dá a impressão que a história dos caminhantes começa com um grande fôlego, pelo meio resiste para se manter viva, e no fim tem um impulso mais ou menos repentino, por oposição aos cadernos de Kindzu que são um verdadeiro repositório de sonhos, imaginário e realidade. Pergunto-me se não funcionariam melhor como contos separados. A verdade é que mesmo com este pequeno senão, Terra Sonâmbula consegue ser um bom livro. Com mestria, mistura guerra e sonho, ilusão e paz, humanidade e sobrevivência, África e o resto do mundo. As tradições e superstições moçambicanas representam uma parte importante da trama e opõem-se à dura realidade de um país devastado pela morte. A mistura é de tal ordem que, a certo ponto, não se sabe se se sonha com a destruição ou com a vida, e a miséria é tão banal que o extraordinário é haver comida na mesa.

Terra Sonâmbula é, de muitas maneiras, um livro chocante. No entanto, o choque é atenuado pelo sonho e superstições africanas, para o leitor como para os viventes da narrativa. É um livro que nunca dorme, numa terra que tem medo de dormir, com personagens que, quando dormem, sonham com outros personagens que nunca dormem porque têm medo de dormir. É a realidade dentro de um sonho dentro da realidade de um sonho. Labiríntico, sem dúvida. Impressionante, definitivamente. Ficou-me, no entanto, um amargo de boca, talvez por levar expectativas diferentes ou demasiado altas, Terra Sonâmbula não me apresentou um Mia Couto como eu esperava conhecer. O que, diga-se, também não é necessariamente mau.

Referências Bibliográficas: Terra Sonâmbula, Mia Couto.

 

Ler 915 vezes Última modificação em Sexta, 16 Agosto 2013 17:12
José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e comentarista esportivo da Mais FM 106,1.

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