Mateus Prado é especialista no ENEM
“A denúncia da Folha precisa ser levada a sério. O Ministério Público deve abrir investigação e, se comprovada as irregularidades, os responsáveis devem ser punidos. Investigação isenta e aplicação rigorosa da lei fortalecerão o Enem, mesmo em meio ao contexto de fraude constatada.”
A Folha de São Paulo publicou uma análise estatística dos microdados do ENEM que indica claramente a existência de fraudes em todas as edições da prova e que grupos especializados comercializam o gabarito do exame, num engenhoso esquema ilegal de resolução das provas em tempo real seguido da transmissão das respostas.
A metodologia que a Folha usou, apesar de parecer complexa, é relativamente simples e barata de aplicar, se feita por bons estatísticos. Na verdade, ela até se popularizou quando um livro de estatística em linguagem popular fez muito sucesso no Brasil e no mundo (Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta). O livro conta, entre outras histórias, a experiência do departamento de Educação da cidade de Atlanta. Lá tinha sido adotada uma prova de avaliação da Educação cujo resultado influenciava diretamente o valor de bônus que seria pago a professores e demais profissionais envolvidos.
Ora, bonificação é uma forma de aumentar, consideravelmente, a remuneração dos professores. E quando existem motivadores econômicos que condicionam a mudança de uma realidade em troca de vantagens financeiras já é esperado que parte dos agentes que irão se beneficiar da possível vantagem façam esforços para atingir as metas que garantem a melhoria de seu poder de compra, mesmo que esses esforços não sejam muito éticos. E o bônus na cidade de Atlanta foi o maior responsável pela fraude que foi encontrada quando estatísticos foram analisar o comportamento de respostas das questões de testes para avaliar a qualidade do sistema de ensino municipal. Descobriu-se que pelo menos 178 professores participaram de uma fraude para enganar o sistema de avaliação e ter seus recebimentos aumentados. E eles estavam distribuídos em 44 das 56 escolas analisadas. Alguns professores simplesmente marcavam/corrigiam o gabarito dos alunos para inflar as notas médias de suas turmas.
Uma vaga em Medicina, Engenharia, Direito, entre outras, em uma Universidade Pública também é um belo incentivo econômico. Pagar 6 anos de Medicina em uma Universidade Particular pode custar mais que R$ 720.000 só em mensalidades, fora que a lógica cruel da seleção ‘meritocrática’, da escassez de vagas e do exagerado ganho de status social já faz ser muito atraente passar em Medicina e em alguns outros cursos sem estar preparado para tal, até mesmo em Universidades particulares. Sendo assim, é tolice nossa esperar que não existissem, ou no novo e bom ENEM ou no velho e ruim Vestibular, estruturas que fraudassem os sistemas e que aprovassem alunos mais abastados fornecendo o gabarito em troca de modestas colaborações milionárias.
E foi o que aconteceu. Não em um ou outro ano do ENEM. Aconteceu em praticamente todos os anos em que ele foi aplicado. E é óbvio que já acontecia antes do ENEM.

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  • José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do…

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