EDUCAÇÃO - BULLYING DE NOVO!? Destaque

Escrito por  Sábado, 21 Outubro 2017 03:50

Por Antonio Gilvan Teixeira*

Quando se trata de violência escolar, o mês rosa também é azul, 20 de outubro - Dia Internacional de combate ao bullying. Segundo dados do UNICEF, “Uma a cada três crianças, entre 13 e 15 anos, é vítima de bullying na escola regularmente”. No intuito de contribuir com essa campanha de conscientização e de identificação e combate ao bullying, no nosso ínfimo conhecimento sobre o tema, retomamos às páginas desse jornal, como assim o fizemos nas edições 391, 526 e 596 para um diálogo acerca dessa realidade nas escolas.

“Bullying, palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão” (Fante, 2005).  Vem de bully (valentão, brigão, etc…) mas é entendido como um fenômeno que compreende todas as formas de atitudes agressivas intencionais e repetidas, sem que ocorra motivação evidente e que são adotadas por um aluno ou vários alunos contra outro (s)”.

Antes de iniciarmos nosso diálogo, é importante que sejamos cuidadosos nas afirmações de bullying. Temos de considerar que alguns conflitos interpessoais são importantes no desenvolvimento das crianças e adolescentes, muitas agressões acontecem de forma isolada e sem repetição -  ação/reação -, simples assim, depois tudo passa e a harmonia retoma seu curso normal.

 

É possível verificar consenso em algumas literaturas sobre a dificuldade que é lidar com o bullying, inclusive com sua identificação real, dada sua complexidade e características veladas, incisivas e muito específicas, na sua forma de ser e de se estabelecer no cenário insólito de seus personagens. A esse respeito, no nosso caso, desempenhando Função de Coordenador de Assistência Estudantil, há pouco mais de treze anos no Instituto Federal do Ceará - Campus Iguatu e mais diretamente com alunos (as) residentes, que chegam nas nossas residências com média de 14 anos e lá permanecem por três anos. Assim, consideramos um universo de muito aprendizado, visualizamos nesse perfil de aluno (a) uma fonte in loco, real e material de oportunidade e compreensão do muito que se deve valorizar os aspectos sociais, econômicos, culturais, familiares e individuais de cada estudante, também sua forma de lidar com o diferente, com adversidade e, sobretudo, sua peculiaridade de socializar situações vividas de constrangimentos e agressões sofridas,  fato que nos permite uma visualização de  possibilidade de bullying.

Esse ambiente (residência estudantil) nos proporciona observação em grupo específico de características agressivas bem peculiares, quando há. A forma como acontecem, sejam praticadas, sofridas e/ou acobertadas geralmente nos permitem uma prognose da situação, nessa fase de convergência da análise dos fatos cremos ser possível traçar estratégias de intervenção mais eficientes.

O fato de estar no plano concreto do fenômeno, de forma mais autêntica e espontânea,  o (a) estudante externiza sua agonia interior enfaticamente, portanto cabe a nós educadores e pais  utilizarmos dos conhecimentos necessários sobre o bullying, das diversas formas de intervenção no processo e agirmos no enfrentamento, mas cientes de que é a sensibilidade que deve anteceder qualquer ação, pois quando se é sensível e não somente técnico as respostas positivas se sobressaem às situações de conflitos.

Agora, saindo de uma referência mais pontual e permeando pelo diálogo mais aberto, pretendemos ser mais abrangentes, pois o bullying e suas formas de causar o mal, geralmente são semelhantes, é claro que se deve considerar os aspectos particulares de perfil dos estudantes, de suas escolas, entre outros, como também dos profissionais que têm a missão mais direta de realizar os processos de interferência nos ambientes e eventos que propiciam o desencadear do fenômeno. Um aspecto intrínseco para quem quer se envolver no combate ao fenômeno é um conhecimento mesmo que incipiente sobre o bullying e seus protagonistas, (agressor, expectador e vítima). É importante salientar que apesar dos protagonistas se apresentarem como poucos, do ponto de vista quantitativo, as formas como se manifestam no processo são bem complexas. A função de cada protagonista, na lógica do fenômeno, é bem definida, muitas delas são diferentes embora se trate de um mesmo personagem. Há consenso entre alguns pesquisadores (as) na forma de descrever as características desses protagonistas. Pesquisadoras como Fante (2005) e Silva (2010) contribuem de forma relevante para esses esclarecimentos.

No caso das vítimas de bullying é conveniente observar algumas particularidades entre elas.

Típica - Apresenta uma fragilidade mais óbvia – é menos sociável, é bode expiatório para determinado grupo, não apresenta para agressor (es) perigo. Suas características físicas frágeis também são importantes nesse perfil;

Provocadora – Também provoca e tem facilidade de atrair para si as agressões, ela reage mas não obtêm sucesso. Nesse aspecto estão inclusos os impetrativos, impulsivos que em alguns casos criam situação de conflito sem intenção específica, com isso beneficiam os verdadeiros agressores que continuam no plano da não cognição;

Agressora - Tenta reproduzir a agressão sofrida, mas sem sucesso. Normalmente busca um estudante mais frágil do que ela e aplica as mesmas agressões, o resultado é propagação do bullying e a dificuldade no controle do fenômeno.

No caso dos (as) agressores (as), neste grupo também existem suas particularidades, tanto faz ser menino ou menina, quase sempre se apresentam como mais forte fisicamente, é astucioso (a), tem pouca empatia e afetividade e é claro que em alguns se manifesta o reflexo da desestrutura familiar vivida. Normalmente têm habilidade psicológica de atrair pessoas também “fortes” para formar o time agressor, quando isso ocorre a força do bullying se torna inexorável.

No caso do espectador/testemunha, esse (a) tem papel importante no processo, ainda mais quando não é B.O (baba ovo) na linguagem dos estudantes. Suas características também são bem definidas, ao tempo em que são omissos e aparentemente inócuos na execução do ato agressivo, dão cobertura ao agressor (a). Em síntese, faz caminho paralelo ao agressor (a) e vítima, contribuindo fortemente para que o bullying se propague nas escolas. Silva (2010) define-os como passivos, ativos e ou neutros.

Os primeiros têm medo de ser a próxima vítima;

Os segundos manifestam apoio aos agressores de forma sutil, ou seja, por meio de risadas e/ou palavras de incentivo ao ato agressor;

Os terceiros têm uma característica própria, nesse grupo estão os que não demonstram sensibilidade aos atos agressivos, alguns são oriundos de famílias desestruturadas e sua “anestesia emocional” se dá pelo reflexo de contexto social em que estão inseridos.

Saindo da singela descrição de bullying e seu universo desafiador, tentaremos dialogar sobre a manifestação e intervenção no problema. Em primeiro lugar não se trata de uma só pessoa ou um profissional de forma isolada realizar esse processo, é necessário o envolvimento de uma equipe multiprofissional. Para além do exposto, é crucial o envolvimento da escola com seus sustentáculos: alunos, pais, professores, técnicos, gestores e se preciso for, especialistas sobre o tema. Assim, juntos e imbuídos do fator mais importante – amor à causa – cremos que o êxito se estabelecerá.

Sobre as estratégias de intervenção, essas são várias, podem ser iniciadas com capacitação da equipe interventora sobre bullying, o aparato tecnológico onde as informações e acontecimentos chegam em tempo real, também favorece nesse processo. Outra forma poderá ser na ocorrência de violência entre escolares na circunscrição escolar efetuar intervenção sempre buscando identificar as características de bullying e para elas proceder de forma específica. Um detalhe importante a se considerar é a peculiaridade de cada escola e seus alunos, entre eles: localização, formação de seus servidores, perfil socioeconômico dos alunos, histórico de família, processo de identificação dos protagonistas do bullying também na sala de aula, logradouros da escola e adjacências. Entre outras possibilidades de ação de combate ao bullying, a parte que trata do envolvimento dos próprios estudantes no processo, ao nosso ver surtirá mais efeito positivo, essa prática poderá ser realizada de forma descontraída por exemplo, com reuniões sobre o tema sem aspecto maçante, grupos focais, gincanas interativas proporcionadas pela equipe, em intervalos, conquista da confiança dos estudantes e quem sabe até estabelecer um Programa Sistemático de Combate ao Bullying na Escola. Finalmente, à medida em que surgir necessidade de mudança de estratégia, que a equipe absorva e que seja novamente energizada nesse espírito.

Conhecendo um pouco mais sobre as particularidades do bullying e seus atores, esta reflexão se encerra no desejo de ter despertado num mínimo uma curiosidade no leitor (a). É possível sim minimizar o clima tenso entre os (as) estudantes e nas suas escolas se todos (as) nesse contexto abraçarem essa nobre causa. Assim “A violência pode ser desaprendida e a tolerância e solidariedade ensinadas”.

 

*Licenciado em Pedagogia pela UECE/FECLI. Servidor do IFCE – Campus Iguatu

 

 

 

 

 

 

 

 

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José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e apresentador dos programas Mais Gospel e Mais Debates, aos sábados, na rádio Mais FM 106,1.

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